Em resumo
- O Brasil enfrenta queda persistente na cobertura vacinal desde 2016, afastando-se da meta de 95% para a maioria dos imunizantes.
- A vacinação é uma decisão pessoal com impacto coletivo: protege não apenas quem se imuniza, mas também pessoas que não podem receber certos imunizantes.
- Campanha de vacinação em escolas se mostrou eficaz para atingir adolescentes, oferecendo oportunidade para diálogo sobre saúde nessa faixa etária.
Em painel realizado nesta quarta-feira, 23 de setembro, durante o 1º Fórum Saúde da Família, três especialistas discutiram um cenário que assusta profissionais de saúde no Brasil: o avanço da desinformação sobre vacinação e a queda na cobertura imunológica do país. A pediatra Mônica Levi, a infectologista e epidemiologista Luana Araújo e a jornalista Marlene Oliveira debateram desafios que vão além da simples falta de acesso às vacinas.
A proteção que vem de uma decisão pessoal
A primeira questão apresentada no painel foi fundamental: quando uma pessoa decide não se vacinar, ela acredita estar fazendo uma escolha apenas dela. Mas a realidade é diferente. Luana Araújo explicou que a imunização funciona como um escudo coletivo: ao garantir a própria proteção, cada pessoa contribui para a segurança de vizinhos, amigos e até desconhecidos que não podem receber determinadas vacinas por orientação médica.
A jornalista Marlene Oliveira resumiu bem essa dinâmica. Ela afirmou que embora a decisão de se vacinar seja pessoal, a consequência é coletiva. “Ao se vacinar você está se protegendo, mas também consegue proteger o restante da comunidade”, explicou. Dra. Luana complementou com um argumento ético: pessoas com sistemas imunológicos mais fracos não podem se imunizar e dependem dos outros. Recusar a vacina por mera preferência pessoal, segundo ela, é egoísta em relação a essas pessoas vulneráveis.
O silêncio enganoso das doenças controladas
A poliomielite como espelho
A poliomielite oferece um exemplo perfeito dessa contradição. Erradicada há mais de quarenta anos do Brasil, a doença simplesmente desapareceu da memória coletiva. As pessoas mais jovens nunca ouviram falar dela. Nunca viram uma criança paralisada ou um pulmão de ferro. Para elas, a paralisia infantil é coisa de ficção científica, não uma ameaça real.
O paradoxo da doença invisível
Justamente por isso, porque o vírus foi eliminado, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos contra ela. O argumento de que “não preciso se não existe mais” é intuitivo, mas perigoso. Dra. Luana alertou durante o painel que eliminar uma doença de um país não significa eliminá-la do resto do mundo. Com viagens, deslocamentos e comércio internacional, o agente do vírus pode ser reintroduzido.
“O silêncio de uma doença não pode ser interpretado como ela tendo deixado de representar uma ameaça”, afirmou a epidemiologista. Essa é a armadilha: o sucesso da vacinação cria a ilusão de que não há mais perigo.
Uma hesitação inédita no Brasil
Dra. Mônica Levi corroborou esse ponto com uma observação sobre a história do Brasil. Ela contou que o brasileiro sempre confiou nas vacinas e que, por muitos anos, nunca houve hesitação em relação a campanhas de imunização. Mas esse cenário mudou. Hoje, segundo ela, profissionais de saúde enfrentam o desafio inédito de convencer pais a vacinarem seus filhos, algo que era impensável no país há pouco tempo.
A crise de cobertura que assusta especialistas
Os números revelados no painel refletem essa mudança de atitude. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil não atingiu a meta de 95% de cobertura vacinal para a maioria dos imunizantes do calendário. Pior: desde 2016, há uma queda gradual e persistente nas taxas de vacinação.
Essa queda deixa populações inteiras sem proteção. O Ministério da Saúde ressalta que a vacinação contribuiu historicamente para o controle de doenças como sarampo e poliomielite. Manter as doses em dia é necessário não apenas para sustentar essa proteção, mas para evitar um retrocesso no sistema de saúde brasileiro. A gravidade está no risco do reaparecimento de doenças graves que já foram controladas. Se a cobertura cair ainda mais, doenças que hoje afetam poucas pessoas, porque a maioria está imunizada, podem voltar a circular livremente.
Cinquenta anos de estudos garantem segurança
Um dos pilares da hesitação vacinal é o medo de reações adversas. Muitos pais e até adultos acreditam que as vacinas são precipitadas ou não foram suficientemente testadas. Dra. Luana rebateu essa preocupação durante o painel: “Nos últimos cinquenta anos, tivemos muitos estudos e desenvolvimento de novas vacinas. Todas elas são testadas e aprovadas para que a população possa tomar com tranquilidade.”
O Ministério da Saúde reforça que os imunizantes disponibilizados pelo SUS passam por avaliações antes de serem oferecidos e continuam sendo monitorados quanto à qualidade, segurança e eficácia. Não se trata de medicamentos aprovados uma única vez e esquecidos. O acompanhamento é contínuo.
A vacinação, aliás, foi uma das maiores evoluções da medicina em termos de vidas salvas ao longo da história. Dra. Luana destacou que a geração atual de jovens não conhece muitas doenças que matavam porque foram erradicadas graças às vacinas. Essa é justamente a origem do problema: o sucesso criou desconfiança.
Vacinas para toda a vida, não apenas para crianças
Um dos maiores equívocos é associar vacinação apenas à infância. O Calendário Nacional de Vacinação de 2026 prevê imunizantes para diferentes fases da vida: crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos, idosos e gestantes. As indicações variam de acordo com idade, histórico vacinal e condições específicas de saúde.
Na adolescência, o calendário do SUS inclui a vacina contra o HPV para meninos e meninas entre 9 e 14 anos, em dose única conforme o histórico. A vacina meningocócica ACWY é indicada entre 11 e 14 anos. Outras vacinas, como hepatite B, tríplice viral, febre amarela e dT, podem precisar ser administradas ou atualizadas. Em 2026, o Ministério da Saúde prorrogou até 31 de dezembro uma estratégia de resgate para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não foram vacinados na idade recomendada.
Mas existe um desafio na transição da infância para a adolescência. Enquanto crianças frequentam constantemente os serviços de saúde, esse contato diminui quando chegam à adolescência. Dra. Mônica Levi identifica aí um ponto de risco: a vacinação deixa de ser percebida pelas famílias como prioridade. “A gente precisa desmistificar que a vacinação é coisa de criança”, afirmou a pediatra. As participantes do painel ressaltaram que as mães frequentemente focam apenas na caderneta de vacinação dos filhos pequenos, deixando de lado a importância de se vacinar durante toda a vida. Mesmo depois que os filhos crescem, os pais precisam manter suas próprias vacinas em dia.
Os idosos e a exclusão das campanhas
Uma faixa etária que é muito negligenciada nas campanhas de vacinação são os idosos. Dra. Luana ressaltou a importância de garantir que a informação chegue até essas pessoas e apontou a necessidade de analisar a acessibilidade dos postos de saúde. “Para combater a falsa crença de que o idoso não precisa de mais cuidados por estar no fim da vida, é necessário aprimorar o acesso dessa população às vacinas, avaliando as condições de deslocamento até os postos de saúde e priorizando ativamente a acessibilidade”, afirmou a epidemiologista. Essa é uma questão de equidade: idosos frequentemente enfrentam dificuldades de mobilidade ou transporte para chegar aos postos.
Escolas como espaço de sucesso
Apesar dos desafios, existem estratégias que funcionam bem. As campanhas de vacinação nas escolas são particularmente eficazes. Segundo Dra. Mônica, ao vacinar adolescentes nas escolas, há oportunidade de conversa importante sobre saúde para essa faixa etária. “O espaço físico facilita muito a vacinação para os jovens, por isso é uma alternativa eficaz.” Campanhas escolares conseguem atingir concentrações grandes de adolescentes sem as barreiras de acesso que existem nos postos de saúde. Além disso, criam um ambiente de diálogo sobre saúde que vai além do ato de se vacinar.
Ao encerrar o painel, todas as especialistas reforçaram uma mensagem: a vacinação é segura, é eficaz e é coletiva. Não se trata apenas de uma questão médica, mas de compromisso social. A escolha pessoal de cada um tem poder sobre a saúde de muitos.
Perguntas frequentes
Quando foi a poliomielite erradicada no Brasil?
A poliomielite foi erradicada há mais de quarenta anos, tanto que hoje as pessoas mais jovens não têm memória da doença.
Qual é a meta de cobertura vacinal que o Brasil não atingiu?
A meta é de 95% de cobertura vacinal para a maioria dos imunizantes do calendário, conforme o Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Qual estratégia de vacinação contra HPV foi prorrogada até fim de 2026?
O Ministério da Saúde prorrogou até 31 de dezembro a estratégia de resgate contra HPV para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não foram vacinados na idade recomendada.