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Saúde infantil vai além de consultas médicas, diz painel de especialistas

Em resumo

  • Especialistas reunidos no 1º Fórum da Saúde da Família alertam que telas, alimentação, sono, rotina acelerada e qualidade dos vínculos afetam múltiplos aspectos do desenvolvimento infantil.
  • A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas para crianças menores de 2 anos e limitar até 1 hora diária para crianças entre 2 e 5 anos.
  • Refeições em família, brincadeira livre e tempo dedicado dos pais funcionam como antídoto contra obesidade infantil, irritabilidade e dificuldades emocionais.
  • Escola e família precisam atuar juntas para reduzir ansiedade, estabelecer rotinas estáveis e construir hábitos saudáveis duráveis.

Cuidar de uma criança envolve bem mais do que agendar consultas e tomar vacinas. O desenvolvimento infantil sofre influência direta do ambiente onde a criança cresce, das relações que constrói e dos hábitos que a família pratica todos os dias. Com rotinas cada vez mais aceleradas, presença constante de celulares e tablets, mudanças nos padrões alimentares e redução do tempo para brincar, proteger a saúde das crianças exige uma visão integrada que atravessa diversos aspectos da vida familiar.

Esses desafios foram o ponto de partida para o painel “Cuidar da infância é cuidar do futuro”, realizado em 23 de setembro na Unibes Cultural, em São Paulo, durante o 1º Fórum da Saúde da Família. O encontro reuniu Mariana Varella, Isa Minatel, Elaine de Pádua, Roberta e Tais Bento, além do pediatra Carlos Augusto Takeuchi, para debater como telas, alimentação, sono, rotina e vínculos afetivos moldam a trajetória das crianças.

O Excesso de Estímulos das Telas

Contar uma história, explicar uma situação ou conversar sobre o dia da criança deveria ser um momento de troca entre pais e filhos. Porém, conforme relata o Dr. Carlos Augusto Takeuchi, a realidade em seu consultório é diferente: muitas crianças não conseguem esperar pacientemente enquanto ouvem o que os pais dizem. Para o pediatra, o culpado está no uso excessivo de dispositivos eletrônicos, que compromete a capacidade infantil de lidar com esperas e com o ritmo natural da conversa.

Tempo de qualidade não é suficiente

Pais e mães costumam ouvir que “qualidade supera quantidade” quando o assunto é tempo com os filhos. Mas a psicopedagoga Isa Minatel desafia essa ideia. Para ela, crianças precisam conviver muito tempo com seus responsáveis, e essa convivência abundante é diferente de simplesmente estar junto. O cérebro infantil está em permanente construção, depende de tempo e repetição. Uma rotina marcada por excesso de novidade, ritmo acelerado e poucos intervalos para respirar produz sintomas visíveis no comportamento das crianças: irritabilidade, dificuldade para esperar, problemas de sono.

O que dizem as recomendações médicas

A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou suas orientações em 2026 com base em evidências sobre exposição digital na infância. O documento reconhece que os efeitos dependem de variáveis como idade da criança, duração do uso, tipo de conteúdo e participação dos pais. As recomendações são diretas: crianças menores de 2 anos não devem ter nenhuma exposição a telas, enquanto entre 2 e 5 anos o limite deve ser de até uma hora por dia. Além do tempo em aparelhos, a SBP enfatiza a necessidade de recuperar o hábito de leitura para que crianças desenvolvam imaginação e aprendam a ler e escrever adequadamente.

Alimentação, Peso e Refeições em Família

Os números do Ministério da Saúde revelam um cenário preocupante na população infantil. Acompanhando crianças de 5 a 9 anos pela Atenção Primária do SUS em 2020, foram encontrados 31,7% com excesso de peso e 15,8% com obesidade. Para a nutricionista Elaine de Pádua, a causa não é singular. Ultraprocessados, bebidas açucaradas, sedentarismo, sono inadequado e excesso de telas formam um conjunto que precisa ser analisado em conjunto, pois a obesidade é multifatorial, envolvendo alimentação, atividade física, sono e contextos sociais e ambientais.

Os primeiros mil dias

O período que vai da gestação até o segundo aniversário da criança, conhecido como primeiros mil dias, é crítico para estabelecer os alicerces. Nessa fase se formam não apenas o crescimento e o desenvolvimento físico, mas também os hábitos alimentares que acompanharão a criança por toda a vida. Elaine destaca que a prevenção do excesso de peso deve começar justamente aí, tornando a alimentação saudável uma prática natural e não uma restrição posterior.

Envolver crianças no preparo de alimentos

A estratégia de levar filhos para o hortifruti, à feira e à cozinha tem duplo valor: expõe as crianças a alimentos saudáveis reais e as afasta das telas ao mesmo tempo. Quando as crianças participam do preparo das refeições ao lado dos pais, experimentam uma sensação de utilidade e valor que reduz a necessidade de compensar com tempo diante de aparelhos. Além disso, refeições ao redor da mesa com a família inteira criam memórias que as crianças carregam para o resto da vida. Para Elaine, essa mudança não é apenas nutricional; é também cultural e emocional.

Brincadeira Livre e a Rotina Sobrecarregada

Aulas de inglês, cursos de programação, atividades extracurriculares, aulas de música. Muitas crianças contemporâneas passam o dia em uma fila de compromissos, com pouco tempo de verdade livre. Roberta e Tais Bento, que trabalham com educação infantil, alertam que momentos de brincadeira desorganizada e até de tédio têm papel essencial no desenvolvimento cognitivo, social e emocional. O tédio, que os adultos costumam temer e apressar, é na verdade um espaço onde crianças exercitam criatividade e aprendem a lidar com emoções.

Influenciadores mirins e comparação social

Um fenômeno distinto marca a infância atual: crianças consumindo conteúdo produzido por influenciadores da mesma idade. Essa dinâmica muda o que importa para elas. Passam a se preocupar muito mais com a opinião de pares do que seria esperado naturalmente. Tais observa que o excesso de compromissos manifesta-se paradoxalmente: a criança chega cansada na escola e nas relações sociais, exatamente onde deveria estar mais presente.

Escola e Pais: Uma Parceria que Falta

Existe hoje uma tendência de escola e família ocuparem lados opostos quando algo não funciona. Um dos problemas que exemplifica essa divisão é o bullying. Escolas acusam, pais acusam, mas Roberta aponta a origem real: bullying nasce nas redes sociais e apenas acontece no ambiente escolar porque esse é o único lugar onde crianças convivem com pares. Tais acrescenta outra questão: existe uma busca de positividade excessiva, onde pais desejam que os filhos estejam sempre felizes, o que não é viável nem saudável.

Quando escola e pais trabalham de forma coordenada, conseguem reduzir ansiedade, estabelecer rotinas que favorecem a autorregulação das emoções e construir valores relacionados à saúde integral. Uma abordagem conjunta também ajuda a situar responsabilidades no lugar certo e a estabelecer limites realistas.

O Vínculo Afetivo como Base

Independentemente de qual fator se destaque — telas, alimentação, escola ou sono — um elemento atravessa e sustenta todos eles: a presença do adulto na vida da criança. Construir um vínculo afetivo genuíno exige tempo, paciência e dedicação, não é algo que se resolve com um passeio ocasional ou uma conversa rápida. Isa Minatel enfatiza a necessidade de criar desde cedo um canal de comunicação baseado em verdadeira presença e disponibilidade.

Uma situação que ilustra essa mudança comportamental é comum: criança tenta tirar o pai ou a mãe do celular, convida para passear, mas o que prevalece é o oposto. Os adultos, apressados, trazem sua correria para as crianças em vez de oferecer um respiro. Isa considera que aqueles que conseguem perceber os efeitos prejudiciais desse estilo de vida acelerado conseguem transformá-lo, enquanto outra parcela precisará de intervenção mais intensiva posteriormente.

Uma Construção Diária

Cuidar da infância não é questão de fazer uma única escolha correta. Do tempo diante das telas ao conteúdo do prato, do sono às brincadeiras e à convivência genuína, diferentes aspectos da vida cotidiana se articulam na construção da saúde física e emocional. É um trabalho constante que exige dedicação contínua e tempo de qualidade considerável. O ambiente concreto em que as crianças estão imersas, mais do que qualquer intervenção isolada, é o elemento mais determinante para um desenvolvimento saudável.

Perguntas frequentes

Quanto tempo de tela é recomendado para crianças?

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas completamente para crianças menores de 2 anos e limitar o uso a até 1 hora por dia para crianças entre 2 e 5 anos.

Qual é o período mais importante para formar hábitos alimentares saudáveis?

Os primeiros mil dias, que abrangem a gestação e os dois primeiros anos de vida da criança, são fundamentais para o crescimento, desenvolvimento e formação dos hábitos alimentares que acompanharão a criança.

Por que a parceria entre escola e pais é importante?

Quando coordenadas, as duas instituições conseguem reduzir ansiedade nas crianças, estabelecer rotinas que favorecem a autorregulação emocional e construir valores relacionados à saúde integral de forma consistente.

Written by
Fernanda Quintela

Fernanda Quintela escreve sobre rotina, organização doméstica e pós-parto, com dicas práticas para famílias que estão se reorganizando após a chegada de um bebê.