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Ciência e realidade: como colocar saúde em prática no dia a dia

Em resumo

  • O 1º Fórum Saúde da Família reúne especialistas para discutir como adequar recomendações científicas à realidade concreta de cada família.
  • Adolescentes podem passar mais de 15 horas por dia com o celular sem que os pais percebam o tempo real de uso.
  • Profissionais de saúde devem orientar com empatia e sem culpa, respeitando os recursos e limites específicos de cada família.

As recomendações para uma infância saudável circulam por toda a parte. Dormir bem, movimentar o corpo, alimentar-se equilibradamente, acompanhar a vacinação, cuidar da saúde mental, controlar o tempo de telas—tudo isso é conhecido. Mas existe um vazio entre saber o que faz bem e conseguir colocar tudo isso em prática quando a rotina aperta, quando não há dinheiro, quando o trabalho sufoca, quando o filho tem necessidades especiais. É justamente esse espaço entre o ideal e o possível que o 1º Fórum Saúde da Família discutirá em painel chamado “Entre a ciência e a vida real”.

Quando a recomendação encontra a realidade

O encontro contará com o médico Drauzio Varella e o pediatra Daniel Becker, ambos pais e atuantes na saúde integral de crianças e adolescentes. A proposta é olhar para as recomendações considerando as condições concretas de cada família—aquela com jornada intensa de trabalho, aquela que sofre com dificuldades financeiras, aquela em que há pouco tempo, necessidades específicas dos filhos, separações, outras situações que fazem parecer simples no papel e muito diferente na prática.

Os limites invisíveis de cada família

Quando a estrutura não acompanha

Para Daniel Becker, é crítico entender os limites de cada família antes de transformar uma recomendação em cobrança. “Se existe uma família que não está cumprindo as recomendações porque não consegue, porque não tem estrutura para isso ou porque a criança tem necessidades específicas, estamos diante de situações muito mais sérias”, afirma. Nesses casos, o profissional de saúde precisa além de orientar—escutar e buscar alternativas possíveis. “Temos que ter empatia com aquela família e tentar ajudá-la a superar a situação que está vivendo”, diz.

O desafio nos dois lados da renda

Mesmo em famílias com maior disponibilidade de recursos, os desafios existem. Contratar ajuda, escolher escola de período integral, terceirizar tarefas—isso facilita o cuidado, mas não elimina jornadas profissionais intensas e a falta de tempo para convivência familiar. Nesse cenário, Daniel destaca como essencial aquilo que transcende protocolos: brincar, cultivar amizades, conversar, fazer refeições em família sem telas, dedicar tempo de qualidade aos filhos. Já em famílias que enfrentam jornadas extensas, dificuldades econômicas, outras situações de estresse, as possibilidades mudam. “A gente tenta otimizar da melhor forma possível dentro dos recursos e das possibilidades daquela família”, explica.

Quando a informação revela o óbvio invisível

O pediatra percebe que informação é uma ferramenta poderosa para ajudar as famílias a perceberem hábitos que passam despercebidos. Ao explicar que a Organização Mundial de Saúde recomenda pelo menos uma hora diária de atividade física moderada a intensa para crianças, costuma notar surpresa entre os pais. Isso porque é comum que crianças passem grande parte do dia sentadas, com pouco tempo para brincar e se movimentar.

Telas: quando 15 horas por dia ficam invisíveis

A mesma lógica aparece com as telas. Daniel verifica durante consultas o tempo de uso do celular de adolescentes e muitas famílias se surpreendem com o resultado. “Já houve famílias em que fiz uma contagem das horas que a criança ou o adolescente passa diante da tela. Pego o celular e verifico o tempo de uso, e os pais ficam boquiabertos”, relata.

Em um dos casos que menciona, um adolescente chegava a passar 15 horas por dia diante da tela. A mãe desconhecia esse uso durante a madrugada e se emocionou ao perceber a dimensão da situação. Situações assim mostram que orientar também significa ajudar a família a enxergar o próprio cotidiano. “As pessoas precisam, antes de mais nada, de informação”, afirma Daniel.

O pediatra chama atenção para situações em que o celular ocupa o espaço de atividades importantes para o desenvolvimento—socialização, brincadeira, esporte, estudo, convivência, movimento físico. Orientar os pais sobre esse uso precisa envolver diálogo e ferramentas práticas, como o acompanhamento do tempo de tela e recursos de controle parental. Mas a cobrança não deve vir acompanhada de culpa. “Nunca colocar a culpa, mas sempre falar sobre hábitos saudáveis e pedir que a família faça o melhor que puder e, pelo menos, o mínimo necessário”, afirma.

A responsabilidade de quem sabe

Cobrança empática

“A cobrança precisa ser muito respeitosa e empática. É preciso se colocar no lugar daquela família e tentar ajudá-la a alcançar o melhor cuidado possível para os filhos dentro das suas limitações”, resume Daniel. Mesmo quando o cuidado ideal não é possível, é importante tentar otimizá-lo dentro dos recursos e das possibilidades disponíveis.

Drauzio Varella e a obrigação de comunicar

Para Drauzio Varella, compartilhar conhecimento é uma responsabilidade, mas a forma como ele chega às pessoas também importa. “Quando você tem um conhecimento, especialmente em uma área como a saúde, você tem a obrigação de compartilhá-lo. Mas isso não basta: é preciso que essa informação chegue às famílias de forma clara, acessível e baseada em evidências.”

Desinformação como ameaça

O médico também destaca os desafios provocados pela desinformação em temas como vacinação, prevenção e bem-estar. “Não podemos deixar que o vazio de informação de qualidade seja preenchido pelo medo ou pelo senso comum”, afirma.

O fórum como ponte entre ciência e cotidiano

É nesse ponto que o painel “Entre a ciência e a vida real” se concentra: como fazer com que o conhecimento produzido pela medicina e pela ciência se transforme em escolhas possíveis no cotidiano, considerando que as famílias não partem das mesmas condições nem enfrentam os mesmos desafios. O 1º Fórum Saúde da Família, realizado pela Pais&Filhos em parceria com Drauzio Varella e Júpiter Conteúdo, nasce com a proposta de aproximar informações de saúde baseadas em evidências da realidade das famílias brasileiras.

A programação será organizada em torno de três grandes eixos: prevenção, saúde e bem-estar; vacinação; e comunicação entre famílias, com palestras, mesas-redondas e debates mediados pela equipe editorial da Pais&Filhos.

Programação completa do evento

O 1º Fórum Saúde da Família acontece em 23 de setembro de 2026, das 10h às 18h, na Unibes Cultural, em São Paulo, com vagas limitadas.

  • 10h30 – Abertura e boas-vindas com Andressa Simonini, CEO da Pais&Filhos
  • 11h – Painel 1: “Entre a ciência e a vida real” (Drauzio Cast especial), com Dr. Drauzio Varella e Dr. Daniel Becker
  • 12h – Painel 2: “Cuidar da infância é cuidar do futuro”, com mediação de Mariana Varella (jornalista), Dra. Elaine de Pádua (nutricionista), Roberta e Taís Bento (SOS Educação), Isa Minatel (psicopedagoga) e Dr. Carlos Augusto Takeuchi (neurologista pediátrico e chefe da equipe de neuropediatria do Sabará Hospital Infantil)
  • 13h – Painel 3: “Quem protege, vacina!”, com mediação de Andressa Simonini, Dra. Luana Araújo (infectologista), Marlene Oliveira (Instituto Lado a Lado pela Vida) e Dra. Mônica Levi (presidente da Sbim)
  • 15h30 – Painel 5: “Quando a vida muda os planos”, com mediação de Gabriela Lyan (jornalista), Daiana Garbin (jornalista), Antoine Daher (Presidente da Casa Hunter), Jussara Del Moral (Supervivente) e Natalia Lopes (Voz das Mães)
  • 17h – “Drauzio, corre aqui”, com Dr. Drauzio Varella respondendo dúvidas da plateia

Perguntas frequentes

Qual é o objetivo do painel "Entre a ciência e a vida real"?

Discutir a distância entre as recomendações científicas de saúde e a dificuldade de colocá-las em prática considerando as condições reais de cada família.

Como o pediatra Daniel Becker descobre quanto tempo crianças passam com celulares?

Verifica o tempo de uso do dispositivo durante as consultas, acessando o histórico do celular para mostrar aos pais números que muitas vezes os surpreendem.

Quando acontece o 1º Fórum Saúde da Família?

Em 23 de setembro de 2026, das 10h às 18h, na Unibes Cultural, em São Paulo.

Written by
Camila Ferrari

Camila Ferrari cobre sono do bebê e rotina familiar, com foco em métodos gentis para ajudar recém-nascidos e bebês maiores a dormirem melhor — e os pais também.