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1º Fórum Saúde da Família debate telas, vacinação e saúde materna

Em resumo

  • Especialistas alertam que uso excessivo de telas reduz habilidades de leitura, atenção e memória nas crianças, prejudicando o desenvolvimento social.
  • Vacinação protege não apenas o indivíduo, mas toda a comunidade, especialmente pessoas que não podem receber certos imunizantes.
  • Cuidado com saúde materna começa antes da gravidez e continua após o nascimento, com atenção a doenças que reaparcem anos depois.
  • Diagnóstico precoce de doenças raras salva a vida da família e reduz gastos desnecessários no sistema público de saúde.

No dia 23 de setembro, a Unibes Cultural em São Paulo recebeu o 1º Fórum Saúde da Família, evento realizado pela Pais&Filhos em parceria com Drauzio Varella e Júpiter Conteúdo. Ao longo do dia, especialistas, profissionais de saúde, jornalistas, mães e pais se reuniram para conversar sobre temas que atravessam a vida das famílias: desenvolvimento infantil, alimentação, sono, telas, vacinação, saúde da mulher, gestação, doenças raras e rede de apoio. A abertura contou com Andressa Simonini, CEO da Pais&Filhos, que destacou a importância de transformar o conhecimento compartilhado em informação que chegue a outras famílias.

O Impacto das Telas no Desenvolvimento Infantil

Drauzio Varella e Daniel Becker abriram o primeiro painel do dia com uma conversa sobre os desafios de conciliar recomendações científicas com a vida prática das famílias. Os dois médicos destacaram como o uso excessivo de telas afeta as crianças: habilidades de leitura em declínio, perda progressiva de atenção e memória, além de prejuízos ao sistema neurológico. Drauzio apontou uma mudança geracional. Antigamente as crianças brincavam nas ruas e desenvolviam vivências sociais naturalmente; hoje esse cenário mudou radicalmente.

Brincadeira ao ar livre e habilidades sociais

Daniel Becker enfatizou que brincar ao ar livre traz benefícios concretos à imunidade e desenvolve habilidades de comunicação e argumentação fundamentais no ser humano. Quando crianças brincam umas com as outras, naturalmente aprendem a se relacionar de forma que a tela não consegue proporcionar.

A culpa dos pais e os desafios da rotina

Ambos os médicos abordaram como a rotina acelerada e o uso excessivo do celular entre adultos está prejudicando a relação entre pais e filhos. Muitos responsáveis carregam culpa pela criação, um sentimento que acaba afetando a dinâmica familiar. Para Daniel, estabelecer limites e aprender a dizer “não” é essencial para uma convivência mais saudável.

Desenvolvimento Infantil Além das Telas

Um segundo painel reuniu nutricionista, psicólogos e um neurologista pediátrico para discutir como diferentes aspectos da rotina interferem no desenvolvimento. Carlos Augusto Takeuchi relatou situações vistas em seu consultório: crianças que não conseguem esperar cinco minutos para uma mãe terminar uma história porque perderam paciência com o uso excessivo de telas.

Tempo de qualidade e quantidade

Isa Minatel apontou que não basta o tempo chamado “de qualidade”; as crianças precisam de tempo de quantidade com os pais. Enquanto o debate se concentra nos males da tela, pouca atenção se dá à falta de interação genuína entre gerações.

Alimentação como momento familiar

A nutricionista Elaine de Pádua reforçou que refeições são oportunidades de criar memórias que as crianças carregarão para a vida toda. Ela questionou por que, apesar da quantidade de informação disponível sobre nutrição, os índices de obesidade infantil continuam crescendo. Esse crescimento indica que a educação por si só não basta sem mudança de comportamento.

Influenciadores, redes sociais e bullying

Roberta e Tais Bento discutiram como o comportamento infantil mudou com as redes sociais. Crianças hoje consomem conteúdo de influenciadores da mesma idade e se preocupam mais com a opinião de pares do que gerações anteriores. Elas também apontaram que bullying nasce nas plataformas digitais e depois se manifesta na escola — não o contrário. Culpar a instituição de ensino mascara o problema real.

Vacinação: Proteção Individual e Coletiva

O terceiro painel focou na queda das coberturas vacinais, medo de reações e desinformação, problemas mais recentes na história da medicina brasileira. A infectologista Luana Araújo deixou claro que o desaparecimento de uma doença não significa que ela deixou de representar ameaça. Vacinação salvou mais vidas ao longo da humanidade do que qualquer outra intervenção médica. Gerações mais jovens esqueceram de doenças que foram erradicadas justamente porque as vacinas funcionaram.

Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, reforçou que a relação dos brasileiros com vacinas mudou radicalmente nos últimos anos. Historicamente, o Brasil sempre confiou em campanhas de imunização, mas esse cenário se inverteu. Agora enfrenta o risco do reaparecimento de doenças graves. Ela também destacou que vacinação não é assunto restrito à infância: é uma prática que acompanha a vida toda.

Sobre vacinação de adolescentes nas escolas, Mônica afirmou que o espaço físico facilita muito o processo e oferece oportunidade de conversar sobre saúde com essa faixa etária. A decisão de se vacinar é individual, mas suas consequências são coletivas. Quem se vacina protege também pessoas que não podem receber certos imunizantes por contraindicações médicas.

Saúde Materna: Cuidado Antes, Durante e Depois

O obstetra Eduardo Cordioli apresentou uma mensagem clara: o cuidado com a saúde da mulher não precisa começar apenas quando o teste de gravidez fica positivo. A consulta pré-gestação é uma oportunidade importante que muitas mulheres adiam.

Um dado relevante: cerca de 30% das mulheres que engravidam em São Paulo possuem alguma doença crônica, mas apenas 40% delas estão clinicamente estáveis. A saúde mental integra esse cuidado. Para cuidar plenamente de outra pessoa, como o bebê, é fundamental que a mulher também esteja bem.

Após o nascimento, o acompanhamento não deve desaparecer. Eduardo alertou que mulheres devem estar atentas a doenças desenvolvidas durante a gestação porque podem reaparecer anos depois. Cerca de 40% das mulheres que tiveram diabetes gestacional desenvolvem diabetes tipo 2 futuramente.

O Hospital e Maternidade Santa Joana apresentou o Projeto Madrinha, uma iniciativa de educação e acolhimento de gestantes. O projeto oferece atendimento por WhatsApp, acompanhamento de uma profissional do hospital e uma ferramenta de inteligência artificial treinada por especialistas. Quando a gestante esquece de alguma pergunta durante a consulta ou tem dúvida, pode enviar mensagem a qualquer hora do dia, e uma enfermeira real monitora e alerta se houver erro na resposta da IA.

Quando o Diagnóstico Muda os Planos

O último painel abordou histórias de famílias que precisaram reorganizar completamente seus caminhos diante de diagnósticos inesperados e doenças raras. Natália Lopes compartilhou a experiência de ter recebido suspeita de uma condição rara durante a gestação do filho Vini. Ela descreveu como deixou de pensar em enxoval e quarto para se concentrar em uma pergunta muito mais urgente: terei meu filho comigo?

Após o nascimento, vieram exames, especialistas e a busca constante por respostas. A dificuldade de não saber o diagnóstico se traduz em não conseguir entender qual é o melhor tratamento possível. Antoine Daher, que atua na defesa de pessoas com doenças raras, reforçou que o diagnóstico precoce salva a vida de toda a família. A demora causa danos tanto à estrutura familiar quanto ao Sistema Único de Saúde, que gasta recursos significativos antes do diagnóstico correto ser descoberto.

Daiana Garbin compartilhou a experiência de ter uma filha, Lua, diagnosticada com retinoblastoma ainda bebê. Ela confessou a culpa de não ter percebido os sinais antes, mesmo convivendo diariamente com a criança. A experiência levou Daiana e Tiago Leifert a criar a campanha De Olho nos Olhinhos, com o objetivo de informar famílias e profissionais de saúde sobre a importância da saúde ocular na infância.

Jussara Del Moral trouxe uma perspectiva diferente ao falar sobre seu câncer de mama. Ela não quer que a doença seja protagonista em sua vida, reconhecendo que ela existe e tem papel importante, mas recusando-se a ser definida por ela. Para Jussara, informação de qualidade salva vidas. Sua escolha foi viver o presente em vez de antecipar o futuro: sua vida é hoje, não amanhã.

A rede de apoio também foi destaque, com menção ao trabalho do Voz das Mães, uma organização que dá voz às mães de crianças com condições raras ou graves.

Perguntas frequentes

Quando deve começar o cuidado com a saúde da mulher na gravidez?

O cuidado não precisa começar quando o teste fica positivo. A consulta pré-gestação é importante, e após o nascimento o acompanhamento continua, pois doenças da gestação podem reaparcer anos depois.

Por que os adolescentes devem se vacinar nas escolas?

O espaço escolar facilita a vacinação e oferece oportunidade de conversar sobre saúde com essa faixa etária, além de proteger pessoas que não podem receber certos imunizantes.

Como o uso de telas afeta a paciência das crianças?

Crianças com uso excessivo de telas desenvolvem impaciência e perdem a capacidade de esperar, deixando de aprender habilidades de comunicação que ganham naturalmente ao brincar com outras crianças.

Written by
Juliana Bresser

Juliana Bresser escreve sobre desenvolvimento infantil, marcos motores e cognitivos, e estímulos apropriados para cada fase. É mãe de dois filhos e pedagoga de formação.