Em resumo
- O melhor presente no Dia das Crianças pode ser presença autêntica e liberdade para brincar e imaginar livremente.
- Pesquisadores como Peter Gray alertam para a diminuição da brincadeira livre em crianças com agendas cada vez mais repletas.
- Presença genuína não é apenas estar próximo fisicamente, mas estar atento e ligado naquilo que a criança faz.
- Quando oferecemos espaço para que a criança brinque sem roteiro, a imaginação e criatividade surgem naturalmente.
Quando o Dia das Crianças se aproxima, retorna a pergunta habitual: o que dar de presente? Mas talvez a resposta não esteja em nenhuma caixa de brinquedo.
Além do presente material
A tentação de responder essa pergunta com brinquedos é compreensível. Pais e mães estão cada vez mais atarefados, e muitas crianças passam boa parte do dia longe da família. Não se trata de passar o dia inteiro brincando com os filhos — a vida real não funciona assim para a maioria das famílias. Às vezes, simplesmente não temos disposição ou tempo para isso. E tudo bem.
Tampouco é objetivo transformar essa data em mais uma fonte de culpa. A culpa já acompanha naturalmente a maternidade e a paternidade; não é necessário adicionar outra camada.
Uma infância cada vez mais cheia
Observar as crianças de hoje revela um cenário diferente. Elas preenchem os dias com mais horas na escola, aulas de inglês, esportes, música, festas, passeios, viagens, telas e um volume imenso de estímulos. Em outras realidades, longas distâncias precisam ser percorridas, muitas horas longe de casa, e poucos são os espaços seguros para simplesmente brincar.
O que diz a pesquisa sobre desenvolvimento infantil
O psicólogo Peter Gray, professor e pesquisador sobre desenvolvimento infantil, tem dedicado atenção especial a um fenômeno preocupante: a diminuição do tempo de brincadeira livre e uma infância cada vez mais organizada pelos adultos. Essa preocupação ecoou em um artigo publicado na revista The New Yorker pelo jornalista Joshua Rothman, que trazia um título provocador: “Have We Destroyed Childhood?” — traduzido livremente como “Nós destruímos a infância?”
Oferecer liberdade, não apenas coisas
Talvez nos acostumemos tanto a oferecer coisas às crianças que esquecemos de oferecer algo tão importante quanto: liberdade de escolhas. Essa liberdade inclui transformar uma caixa em algo que nunca se imaginou, misturar brinquedos de maneiras inesperadas, brincar debaixo de uma mesa com as panelas da casa ou simplesmente deitar e imaginar sem roteiro.
Profissionais que trabalham com crianças conhecem bem esse padrão. Quando não entregamos imediatamente um comando do que fazer, algo começa a acontecer naturalmente. A imaginação vem à tona. E se conseguirmos suportar o tédio da criança — e também o nosso tédio — por alguns minutos sem oferecer uma tela, uma atividade dirigida ou uma solução pronta, algo único pode surgir. É frequentemente nesse pequeno intervalo que a brincadeira autêntica nasce.
Presença autêntica versus proximidade física
Estar perto não significa estar presente
É possível estar fisicamente ao lado de uma criança, olhando para o celular, e estar simultaneamente muito longe dela. Por outro lado, é totalmente viável ter pouco tempo disponível e ainda assim transformar aquele encontro em um momento genuíno. As crianças percebem tudo: tanto nosso interesse quanto nosso desinteresse. Se você observar as brincadeiras da sua criança com atenção real, ela vai reproduzir muito do que sente. É o reflexo de estar genuinamente presente, de estar ligado nela.
O ritmo de estar e sair de cena
Oferecemos um repertório farto de arte, música, literatura, natureza, culinária e experiências às crianças enquanto fazemos algo difícil para nós adultos: sair de cena. E reconhecer que há momentos em que a criança quer o oposto — que entremos em cena. A maternidade e paternidade funcionam como um eterno estar conectado, alternando entre presença ativa e espaço, mas sempre ligados à criança.
O que as crianças revelam quando perguntamos
Em uma conversa sobre o Dia das Crianças, Gigi disse que gostaria de um trailer de brinquedo. Não se tratava de um modelo simples: ela quis especificar que teria um local para carregar malas e um lugar para levar trigêmeos. Ao completar a frase, ela revelou não apenas o que deseja brincar, mas também seu sonho: “Sabe, Vavá, eu vou ter trigêmeos quando eu crescer.”
Bárbara, por sua vez, respondeu diferente. Gosta de montar quebra-cabeça com a mamãe e dançar com o papai. O pai dela ganhou uma vitrola e alguns discos, e dançam juntos com frequência. Quando perguntada qual música, respondeu: “Ar Condicionado”. Dias depois, ficou claro que o pai é compositor e cantor — essa música faz parte de um álbum que ele gravou.
Através dessas conversas simples, aprendemos que Bárbara compreende quem é o pai e valoriza profundamente aquele tempo compartilhado. Que Gigi sonha em ser mãe. Nessas pequenas alegrias do dia a dia, que são enormes quando observadas sob o olhar e sentimento das crianças, repousa a esperança, a razão pela qual a vida vale a pena viver.
Fonte: Pais e Filhos
Perguntas frequentes
O que o psicólogo Peter Gray pesquisou sobre as crianças?
Peter Gray, pesquisador sobre desenvolvimento infantil, chamou atenção para a diminuição do tempo de brincadeira livre e para uma infância cada vez mais organizada pelos adultos.
O que diferencia presença autêntica de apenas estar próximo da criança?
Presença autêntica é estar genuinamente ligado e atento ao que a criança faz e sente, mesmo que o tempo seja limitado. Pode-se estar fisicamente ao lado de uma criança olhando para o celular e estar muito longe dela.
Por que a brincadeira livre é importante para o desenvolvimento infantil?
Quando a criança não recebe imediatamente uma instrução do que fazer, a imaginação vem à tona naturalmente. É frequentemente nesse intervalo que a brincadeira autêntica nasce, permitindo o desenvolvimento criativo.