Em resumo
- Adolescentes envolvidos em cyberbullying também sofrem ou praticam agressões presenciais na escola; não existe grupo apenas com agressões on-line.
- Meninas aparecem mais como vítimas presenciais, enquanto meninos predominam em agressões nos dois ambientes simultaneamente.
- Bullying e cyberbullying são crimes no Brasil desde janeiro de 2024, e adolescentes a partir dos 12 anos respondem por ato infracional.
Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desafia a crença comum de que limitar o tempo de celular é a principal forma de proteger adolescentes do cyberbullying. A pesquisa, publicada na revista Psychiatry Research, revela que as agressões on-line começam onde a violência já existe: na escola, durante o dia a dia presencial.
O que a pesquisa descobriu
Os pesquisadores entrevistaram 4.280 estudantes de 13 escolas do interior paulista, do 7º ano do fundamental ao 3º ano do médio. Com base nas respostas, identificaram três perfis de adolescentes conforme seu envolvimento com agressões presenciais e on-line.
Um achado surpreendente foi a ausência de um grupo envolvido apenas com cyberbullying. Segundo Zila Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e orientadora do estudo, “os que estão no cyber estão no presencial também. O cyber é uma continuidade daquilo que já está acontecendo na escola”.
Os três perfis de envolvimento
Embora o estudo não detalhe completamente cada categoria, a divisão aponta adolescentes sem envolvimento com agressões, aqueles que atuam em um ambiente e os que praticam ou sofrem violência nos dois contextos simultaneamente.
Formas que o bullying toma na escola
Bullying raramente é físico. Na maioria das vezes, manifesta-se como exclusão, xingamentos e brincadeiras cruéis que expõem limites pessoais e prejudicam a convivência.
Quem está mais vulnerável
O perfil dos afetados varia conforme gênero, idade e etnia. Meninas aparecem com mais frequência entre as vítimas de bullying presencial, enquanto meninos predominam no grupo que sofre e pratica agressões na escola e na internet simultaneamente.
Adolescentes mais jovens também correm risco maior. Além disso, estudantes negros e pardos registram maior chance de estar entre os grupos mais vulneráveis à violência escolar e cibernética.
O impacto psicológico diferenciado
Quem sofre e pratica agressões nos dois ambientes forma o grupo mais afetado emocionalmente. Mais da metade desses jovens (52,4%) apresenta sintomas psicológicos em nível clínico, comparado com 12,5% entre os que não têm envolvimento com bullying. Essa diferença sugere que a exposição contínua a conflitos agrava a saúde mental.
Álcool, cigarro e vape como padrão
Adolescentes que sofrem e praticam agressões também usam mais álcool, cigarro e vape, revelando uma relação entre violência escolar e substâncias psicoativas.
Quando o bullying é causa e quando é efeito
A pesquisa mostra que a conexão entre bullying e problemas de saúde mental funciona nos dois sentidos. Alguns adolescentes já enfrentam questões emocionais ou usam substâncias e, por isso, ficam mais agressivos. Outros sofrem agressões, desenvolvem problemas emocionais e passam a buscar álcool como forma de auto-mediação.
Essa dinâmica complexa significa que não existe uma única causa, mas um ciclo onde bullying e saúde mental se reforçam mutuamente. Zila Sanchez explica: “Para um grupo, o bullying é causa. Para outro, é efeito”.
Por que a adolescência é um período crítico
A adolescência é uma fase decisiva. Problemas com álcool e outras drogas na vida adulta costumam começar nesse período, tornando a prevenção de bullying uma questão de saúde pública de longo prazo.
Sinais que os pais precisam reconhecer
Em vítimas, os sinais incluem ficar isolado na sala durante o intervalo em vez de ir ao pátio, um indicador claro de exclusão. Retraimento mais acentuado que o normal, vontade frequente de faltar à aula sem motivo aparente e ausência de amigos também merecem atenção dos responsáveis.
Zila recomenda perguntar diretamente: com quem você fica no recreio? A resposta pode revelar muito sobre a vida social do adolescente dentro da escola.
Comportamento do agressor em casa
Em agressores, o comportamento costuma aparecer primeiro em casa, com irmãos e primos. Aquela brincadeira que ele está fazendo com o irmão, ele leva para a escola achando que não é uma agressão. Os pais precisam nomear esse comportamento como agressão e estabelecer consequências claras.
Comunicação constante com a escola
Os pais devem pedir a professores e coordenadores que avisem sobre qualquer suspeita, tanto de o filho estar sofrendo quanto praticando bullying. A parceria entre casa e escola funciona melhor quando há comunicação contínua e específica.
Marcos legais: Lei 14.811 e responsabilidade
Desde janeiro de 2024, bullying e cyberbullying são crimes no Brasil, conforme a Lei nº 14.811. Adolescentes a partir dos 12 anos respondem por ato infracional. Antes dessa idade, a família pode responder na esfera civil, por exemplo sendo obrigada a reparar os danos causados.
Ivanice Cardoso, advogada especialista em bullying e segurança digital e fundadora da consultoria Digital+Legal, esclarece as implicações legais. Para ela, a legislação criou um marco importante, mas as escolas seguem desprepardas em sua aplicação prática.
Responsabilidade das escolas
A comunidade escolar continua existindo fora do horário de aula. Se as agressões acontecem em grupos de WhatsApp da turma, após o término das atividades, a escola não responde necessariamente pelo ato do aluno, mas precisa agir, mediar e notificar o Conselho Tutelar.
Essa obrigação existe desde 2015, com a Lei nº 13.185, e foi reforçada em 2018 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). São Paulo tornou obrigatórios os protocolos contra bullying nas escolas estaduais, sinalizando uma mudança no cenário nacional.
Como validar provas digitais
Prints simples não bastam como prova legal de cyberbullying. É preciso validá-los em cartório, com uma ata notarial, ou em plataformas como e-Not Provas, do Colégio Notarial do Brasil. Esse passo formal protege a vítima e fortalece eventual ação judicial.
Orientações para pais e responsáveis
Se o filho sofre cyberbullying, a recomendação é procurar a escola e, ao mesmo tempo, registrar um boletim de ocorrência. Ivanice enfatiza que paciência é necessária: na sua experiência, uma vítima leva cerca de cinco meses para contar o que está acontecendo.
O custo emocional da reparação
Buscar reparação tem um custo emocional e financeiro. Ivanice reconhece que nem todas as famílias conseguem seguir até o fim do processo, mas defende que vale a pena. Além das indenizações, as decisões costumam incluir, por exemplo, o pagamento de acompanhamento psicológico para a vítima.
Impacto na família inteira
Bullying não atinge só a criança: desestrutura a família inteira. Segundo Ivanice, a reparação, quando acontece, restabelece a ordem e a harmonia dentro daquela família. Para o aluno, a reparação também é uma forma de reconhecer que ele foi vítima de uma violência.
Prevenção como estratégia de longo prazo
Zila defende que combater bullying de forma isolada não funciona. “Precisamos sair das ações pontuais e das palestras isoladas e avançar para programas de prevenção contínuos, inseridos no currículo”, afirma.
Os programas eficazes contra bullying, drogas e problemas de saúde mental trabalham as mesmas habilidades: comunicação, autonomia e identificação de emoções. Trabalhar um deles de forma isolada não produz o efeito global na proteção da saúde do adolescente.
O papel dos colegas como freio
Uma das estratégias mais eficazes também é envolver quem assiste às agressões. Bullying só acontece se tiver plateia, por isso, quando os jovens entendem que podem se posicionar, a dinâmica perde força. O colega que não ri, que se afasta ou que fala algo pode mudar completamente o desfecho.
Privacidade gradual e supervisão ativa
Ivanice defende que a privacidade dos filhos em relação aos pais é relativa e vai sendo conquistada aos poucos, assim como a autonomia para andar sozinho na rua. Reforça também o papel da parceria: “Escola não é academia”. Não basta pagar a mensalidade, é preciso participar ativamente. Os pais podem cobrar que a escola apresente seus protocolos de bullying e um canal de denúncia claro.
Fonte: Pais e Filhos
Perguntas frequentes
Como reconhecer se meu filho está sofrendo bullying?
Sinais incluem ficar isolado na sala durante o intervalo, parecer mais retraído que o usual, querer faltar à aula sem justificativa e não ter amigos para levar para casa. A persistência desses comportamentos é o que deve acender o alerta dos pais.
A partir de qual idade meu filho pode ser responsabilizado legalmente por bullying?
A partir dos 12 anos, adolescentes respondem por ato infracional conforme a Lei nº 14.811. Antes dessa idade, os pais podem responder civilmente e ser obrigados a reparar os danos causados pela criança.
Como registrar um caso de cyberbullying?
Procure a escola e registre um boletim de ocorrência. Prints de mensagens precisam ser validados em cartório com ata notarial ou em plataformas como e-Not Provas, do Colégio Notarial do Brasil, para terem validade legal.