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El Niño pode agravar problemas respiratórios em crianças

Em resumo

  • Crianças menores de 5 anos são mais vulneráveis a doenças respiratórias durante alterações climáticas como o El Niño porque seu sistema imunológico ainda está em desenvolvimento.
  • Poluição atmosférica, altas temperaturas, seca e umidade são fatores que aumentam o risco de internação respiratória infantil.
  • Um estudo do Instituto Pensi analisou mais de 24 mil consultas e 3 mil internações para confirmar que a primavera concentra o maior número de hospitalizações por problemas respiratórios.
  • Crianças que vivem em áreas de vulnerabilidade socioeconômica e perto do tráfego intenso sofrem impactos muito maiores durante eventos climáticos extremos.

Fenômenos climáticos e a saúde infantil

Especialistas alertam para a relação direta entre mudanças climáticas e problemas respiratórios em crianças. Durante o 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado em São Paulo entre os dias 1º e 3 de outubro, pesquisadores apresentaram estudos mostrando como fenômenos como o El Niño, que alteram as temperaturas e os padrões de chuva, afetam particularmente menores de 5 anos. Esse grupo etário é considerado um dos mais vulneráveis aos efeitos das condições climáticas extremas, segundo os especialistas que debateram o tema no evento.

Por que as crianças menores de 5 anos são mais vulneráveis

Imunidade ainda em desenvolvimento

O sistema imunológico infantil não está totalmente formado durante os primeiros anos de vida. Julio Barbosa Chiquetto, professor e pesquisador do Colégio Latino-Americano de Estudos Mundiais, explicou que essa característica fundamental do organismo infantil torna as crianças especialmente sensíveis às variações ambientais. A fisiologia das crianças responde de forma mais intensa a altas temperaturas e é significativamente mais suscetível a doenças respiratórias do que a de um adulto. Essa fragilidade biológica aumenta durante os primeiros cinco anos, período em que o corpo ainda está consolidando suas defesas contra agentes externos.

Influência de fatores sociais e econômicos

Além das limitações biológicas, o ambiente onde a criança vive determina sua capacidade de enfrentar períodos de intenso calor ou outros eventos climáticos extremos. A renda familiar, qualidade da moradia, acesso ao saneamento básico, padrão de alimentação e disponibilidade de serviços de saúde funcionam como amortecedores ou amplificadores dos riscos. Nem todas as crianças de uma mesma cidade estão expostas aos mesmos perigos. Crianças que vivem em áreas mais pobres, com infraestrutura precária e acesso limitado a atendimento médico, sofrem impactos muito maiores quando enfrentam variações climáticas extremas. Essa desigualdade estrutural torna algumas crianças muito mais vulneráveis que outras.

Os fatores ambientais que agravam doenças respiratórias

Poluição atmosférica nas grandes cidades

A exposição à poluição do ar surge como uma preocupação especial para famílias que habitam próximo a avenidas e ruas com grande circulação de veículos. Segundo o Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira, gerente médico do Sabará Hospital Infantil, crianças que moram em áreas com intenso tráfego de automóveis apresentam risco aumentado de problemas respiratórios devido à maior concentração de poluentes no ar que respiram. Essa exposição diária à poluição torna o sistema respiratório infantil ainda mais frágil e suscetível a infecções. As vias respiratórias em desenvolvimento não conseguem filtrar adequadamente as partículas nocivas presentes no ar urbano.

Temperatura, umidade e ozônio como fatores de risco

Um estudo conduzido pelo pesquisador William Cabral, do Instituto Pensi, e publicado no Journal of Global Health, identificou múltiplas conexões entre fatores climáticos e problemas respiratórios. Os resultados mostram que o calor está associado ao aumento de mortalidade entre crianças menores de 5 anos no Brasil. A umidade do ar e a concentração de ozônio também desempenham papéis importantes nesse cenário. Dias com níveis mais elevados de ozônio e períodos com maior umidade estiveram ligados a internações por bronquiolite. Já as infecções respiratórias mostram maior incidência quando as temperaturas caem. Esses padrões sugerem que tanto o calor quanto o frio extremo, assim como as flutuações de umidade, podem desencadear crises respiratórias em crianças pequenas.

O que revelam os dados hospitalares brasileiros

Números expressivos de atendimentos pediátricos

O Sabará Hospital Infantil, que funciona como centro de pesquisa, atende aproximadamente 100 mil crianças por ano. Metade desse total chega com algum tipo de problema respiratório, demonstrando a prevalência dessas doenças na infância. Para investigar a relação entre clima e internações, pesquisadores analisaram mais de 24 mil consultas relacionadas a doenças respiratórias e aproximadamente 3 mil internações pela instituição. Esses números foram processados com ferramentas de inteligência artificial, que permitiram cruzar informações de atendimentos com dados climáticos e de qualidade do ar. Essa metodologia ofereceu uma visão sem precedentes sobre como as variáveis ambientais impactam a saúde respiratória infantil no Brasil.

Padrões sazonais nas internações respiratórias

Os dados revelam que a primavera concentra o maior volume de internações pediátricas por problemas respiratórios. Períodos de clima seco associam-se a quadros mais graves que necessitam hospitalização. Esses padrões não são coincidência: cada estação do ano traz condições ambientais distintas que podem desencadear ou agravar sintomas respiratórios nas crianças. De acordo com William Cabral, nos casos de bronquiolite, as hospitalizações estiveram relacionadas tanto aos dias com níveis mais elevados de ozônio quanto aos períodos com maior umidade. Essa complexidade ambiental significa que combinar fatores, como temperatura elevada junto com umidade alta e poluição, cria cenários especialmente perigosos para crianças pequenas.

Desigualdade no acesso e na exposição a riscos ambientais

A vulnerabilidade de crianças menores de 5 anos não é uniforme dentro de uma mesma cidade. Conforme aponta o Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira, crianças de famílias com maior poder aquisitivo, moradia adequada, acesso a alimentos variados e serviços de saúde de qualidade enfrentam menos riscos quando se deparam com variações climáticas extremas. O inverso ocorre com crianças que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, moradias precárias, áreas com saneamento inadequado e acesso limitado a atendimento médico. Essa disparidade significa que durante períodos de maior exposição ambiental, como calor extremo, poluição ou mudanças bruscas de temperatura, os impactos sobre a saúde infantil tendem a ser muito mais severos nas populações mais desfavorecidas. Crianças biologicamente frágeis e ambientes de alto risco formam uma dupla vulnerabilidade.

Implicações do El Niño para a saúde respiratória das crianças

O El Niño, fenômeno climático que promove alterações significativas nas temperaturas globais e nos padrões de chuva, preocupa especialistas justamente porque amplifica muitos dos fatores que já se sabe agravar doenças respiratórias em crianças. Esse fenômeno, que afeta periodicamente o planeta, tende a intensificar períodos de seca em algumas regiões e aumentar a umidade em outras, criando condições que favorecem tanto infecções respiratórias quanto complicações de doenças já existentes. Aumentos de temperatura, períodos de seca seguidos de umidade anômala e possíveis flutuações na qualidade do ar podem criar cenários desafiadores para menores de 5 anos, especialmente aqueles já expostos a poluição urbana e condições socioeconômicas precárias. Os estudos apresentados no Congresso Sabará-Pensi reforçam que é essencial considerar não apenas as baixas temperaturas, mas também o calor, a umidade e a poluição atmosférica quando se avaliam fatores ambientais ligados a doenças respiratórias na infância. A pesquisa brasileira demonstra que proteger a saúde respiratória das crianças durante eventos climáticos extremos exige ação coordenada em saúde pública, políticas ambientais e acesso igualitário a serviços médicos.

Fonte: Pais e Filhos

Perguntas frequentes

Qual é o grupo de crianças mais vulnerável aos efeitos do El Niño na saúde respiratória?

Crianças menores de 5 anos são o grupo mais vulnerável. Nessa idade, o sistema imunológico não está totalmente desenvolvido e a fisiologia infantil é mais sensível às altas temperaturas e às doenças respiratórias.

Que fatores ambientais mais agravam problemas respiratórios em crianças?

Poluição atmosférica, principalmente próxima a vias com grande circulação de veículos, altas temperaturas, umidade do ar e níveis elevados de ozônio são os principais fatores. Períodos de clima seco também estão associados a quadros mais graves que exigem hospitalização.

Como a desigualdade social afeta a saúde respiratória das crianças durante o El Niño?

Crianças que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, em moradias precárias e com acesso limitado a serviços de saúde sofrem impactos muito maiores durante períodos de alterações climáticas extremas. Crianças de famílias com maior renda e acesso a boas condições de vida conseguem se proteger melhor.

Written by
Patrícia Almendra

Patrícia Almendra é enfermeira obstétrica e consultora em amamentação, com anos de experiência acompanhando mães no puerpério. Escreve sobre pega correta, produção de leite e os desafios reais da amamentação.