Em resumo
- Um estudo americano mostrou que comentários sobre peso prejudicam a autoestima de adolescentes e aumentam o risco de transtornos alimentares.
- O impacto é maior quando a mãe faz os comentários, porque ela é uma das primeiras referências na construção da identidade da criança.
- No Brasil, a insatisfação com o corpo começou a aparecer entre crianças de 7 a 11 anos e intensifica significativamente na adolescência.
- Valorizar características, interesses e conquistas da criança, além de observar como se fala sobre corpo, são passos importantes para construir segurança corporal.
Quando uma mãe comenta sobre o peso do filho ou da filha, pode estar plantando uma semente de insegurança que germina por anos. Uma pesquisa realizada pelo UConn Rudd Center for Food Policy and Health, nos Estados Unidos, publicada em julho no Journal of Pediatric Psychology, traçou esse caminho e confirmou o que especialistas já suspeitavam: as palavras de familiares sobre o corpo deixam marcas profundas, especialmente quando saem da boca de quem cuida.
O estudo que mediu o impacto das palavras
Pesquisadores entrevistaram 1.073 jovens norte-americanos entre 10 e 17 anos para entender de quem partiam os comentários sobre peso. A análise incluiu observações de pais, irmãos, avós, tios e primos. O resultado foi claro: meninas relataram mais esse tipo de observação, principalmente vinda de parentes mulheres. Quando a autora era a mãe, porém, os danos aumentavam significativamente, tanto para meninas quanto para meninos.
As conclusões foram diretas. Comentários sobre o peso estão associados a compulsão alimentar, a tentativas pouco saudáveis de emagrecer e a uma relação prejudicial dos adolescentes com o próprio corpo. Contra o que muitos pais acreditam, essas falas não incentivam a adoção de hábitos mais saudáveis: na verdade, estão ligadas a menos atividade física e a ganho de peso.
Além da autoestima: os danos reais
A cascata emocional que começa com uma frase
Quando uma criança escuta brincadeiras sobre seu corpo, fica mais vulnerável à ansiedade, depressão e estresse. O risco de desenvolver transtornos alimentares também aumenta. Esses não são efeitos colaterais menores: são transformações na forma como o adolescente vê a si mesmo e no seu bem-estar psicológico.
Por que a mãe tem impacto diferente nessa equação
A pesquisadora do estudo atribui o efeito maior da fala materna à proximidade. Em muitas famílias, é a mãe quem organiza as refeições, acompanha a saúde dos filhos e ocupa o lugar de principal vínculo afetivo. Quando um comentário sobre o corpo vem dela, é recebido de forma muito mais íntima e significativa.
Para a psicóloga e psicanalista Ana Carolina Elston, especialista em infância, adolescência e orientação de pais, a mãe, ou quem exerce essa função de cuidado, é uma das primeiras referências a partir das quais a criança constrói sua identidade. “Quando o corpo é alvo frequente de críticas ou comparações, a criança pode começar a associar sua aparência à aceitação e ao próprio valor”, afirma. Elston ressalta que não se trata de responsabilizar a mãe, mas de compreender a força dessas primeiras relações.
Como os comentários são internalizados
A percepção de si mesmo começa a se formar nos primeiros anos de vida, a partir dos olhares, gestos e reações dos adultos. Comentários repetidos sobre o corpo podem ser internalizados e, mais tarde, ganhar novos significados, especialmente na adolescência. Uma fala isolada não determina o futuro de uma criança, mas as experiências acumuladas influenciam profundamente a forma como o adolescente aceita o próprio corpo.
O cenário brasileiro: números que preocupam
A insatisfação com o corpo aparece cedo no Brasil. Um estudo de pesquisadoras brasileiras publicado em 2025 na Revista Científica da FAMINAS avaliou 1.168 crianças de 7 a 11 anos das cinco regiões do país. Em todas elas, as meninas apontaram como ideal um corpo mais magro do que o próprio. Segundo as autoras, a preocupação com a aparência surge quando a criança passa a se comparar com os outros, e nessa fase a família é a principal influência.
Na adolescência, o quadro se agrava. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE, a parcela de estudantes de 13 a 17 anos satisfeitos com a própria imagem caiu de 70% em 2015 para 58% em 2024. A insatisfação atinge pouco mais de 35% das meninas, quase o dobro da registrada entre os meninos, que ficam em 18%. Na escola, a aparência é o principal motivo de bullying entre colegas, citada por 30% dos estudantes em relação ao rosto e ao cabelo, e por 25% em relação ao corpo.
Para além da crítica: até elogios podem prejudicar
O problema não está só nas críticas diretas. Frases como “que corpinho lindo”, ditas em almoços de família e festas, surgem como elogio, mas fazem do corpo da criança um tema aberto a qualquer um. Isso acontece muito mais com meninas, reforçando a mensagem de que o corpo é assunto público, passível de comentário de desconhecidos.
Desde pequenas, as crianças observam e comentam diferenças de corpo, cabelo, cor da pele e tamanho dos colegas, muitas vezes sem intenção de magoar. Para Ana Carolina Elston, esses episódios são oportunidades para que os adultos ajudem a criança a entender o impacto de suas palavras, sem transformar as diferenças corporais em motivo de vergonha ou hierarquia.
Como construir uma relação saudável com o corpo
O primeiro passo é ampliar o olhar para além da aparência e valorizar as características, os interesses, os sentimentos e as conquistas da criança. Um filho que fez gol no jogo de futebol merece ser elogiado por isso, não por como sua roupa ficou. Uma filha que leu um livro inteiro merece reconhecimento pelo feito, não pela forma do corpo.
Os adultos também precisam observar como falam sobre o próprio corpo e o dos outros. “As crianças aprendem tanto pelo que escutam quanto pelo que presenciam”, diz Ana Carolina Elston. Em vez de críticas e comparações, ela defende escuta e acolhimento, para que a criança entenda que seu valor não depende da aparência.
Antes de fazer um comentário sobre o corpo de uma criança, o psicólogo Cid Paz Vieira Filho sugere uma pausa para uma pergunta simples: “A quem serve esse comentário?” Se a resposta for ninguém, melhor deixar para lá.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
É importante ficar atento a mudanças de comportamento que podem indicar sofrimento relacionado à imagem corporal. Alguns sinais incluem evitar certas roupas ou atividades, deixar de participar de brincadeiras, comparar-se demais com outras crianças, sentir vergonha de expor o corpo, falar mal de si mesmo e sofrer diante de fotos e espelhos.
Porém, um sinal isolado não é razão para alarme. Segundo Ana Carolina Elston, o importante é perceber a frequência, intensidade e impacto desses comportamentos na vida da criança ou do adolescente. Se o padrão se repetir e começar a afetar o dia a dia, como recusar sair com amigos, deixar de comer adequadamente ou apresentar sinais de depressão, é o momento de conversar com um psicólogo especializado em infância e adolescência.
Fonte: Pais e Filhos
Perguntas frequentes
Por que comentários sobre peso prejudicam mais quando vêm da mãe?
Porque a mãe é uma das primeiras referências para a construção de identidade da criança, cuida das refeições, acompanha a saúde e é o principal vínculo afetivo. Quando os comentários vêm dela, são recebidos de forma muito mais íntima e significativa.
Quais são os sinais de que uma criança está sofrendo com comentários sobre seu corpo?
Evitar certas roupas ou atividades, deixar de participar de brincadeiras, comparar-se demais com outras crianças, sentir vergonha de expor o corpo, falar mal de si mesmo e sofrer ao se ver em fotos ou espelhos. É importante observar a frequência e intensidade desses comportamentos.
Comentários positivos como 'que corpinho lindo' também prejudicam?
Sim, porque fazem do corpo da criança um tema aberto a qualquer comentário de desconhecidos, transmitindo a mensagem de que a aparência é assunto público. Isso afeta especialmente as meninas.