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Microbioma intestinal e seminal pode afetar chances de gravidez

Em resumo

  • Mulheres com disbiose intestinal apresentaram redução de até 6,6 pontos percentuais nas chances de gravidez por transferência de embrião em FIV.
  • Aquelas com histórico de perdas gestacionais recorrentes viram redução de 6,4 pontos percentuais na probabilidade de engravidar quando com desequilíbrio intestinal.
  • O microbioma do sêmen pode influenciar a fertilidade além dos parâmetros tradicionais medidos no espermograma.
  • O microbioma vaginal não mostrou associação consistente com chances de gravidez, desafiando décadas de pesquisa focada exclusivamente no corpo feminino.

Estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Copenhague revela que as bactérias presentes no intestino das mulheres e no sêmen dos homens podem estar diretamente relacionadas às chances de engravidar e manter a gravidez até o nascimento de um bebê. A pesquisa, divulgada na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health na última terça-feira, analisou casais enfrentando infertilidade ou histórico de perdas gestacionais recorrentes, abrindo novos caminhos para compreender os fatores que afetam a reprodução humana e desafiando alguns pressupostos estabelecidos há anos.

O cenário global da infertilidade e das perdas gestacionais

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 48 milhões de casais em todo o mundo lidam com dificuldades para engravidar. Isso significa que uma em cada seis pessoas enfrenta algum grau de infertilidade durante a vida reprodutiva. Além disso, aproximadamente 23 milhões de perdas gestacionais naturais ocorrem anualmente, conforme demonstrado por um estudo publicado pela revista The Lancet em 2021.

Apesar dos avanços significativos na medicina reprodutiva ao longo das últimas décadas, grande parte desses casos de infertilidade e perda gestacional permanece sem causa identificada. Esse cenário deixa muitos casais enfrentando incerteza, buscando respostas claras sobre por que não conseguem engravidar ou manter uma gravidez viável.

Como foi realizada a pesquisa dinamarquesa

A amostra e o período de acompanhamento

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade de Copenhague em colaboração com os Hospitais Universitários da Dinamarca, durante um período de cinco anos: entre 2018 e 2023. A pesquisa acompanhou 353 mulheres diagnosticadas com infertilidade ou com histórico de perdas gestacionais recorrentes, além de 191 de seus companheiros masculinos. O objetivo era investigar se as alterações nas comunidades bacterianas presentes no intestino e na vagina das mulheres, bem como no sêmen dos homens, guardavam alguma relação com os resultados reprodutivos do casal.

As análises microbiológicas realizadas

Os pesquisadores examinaram detalhadamente o que chamam de “microbioma” — a comunidade complexa de microrganismos que vivem naturalmente em diferentes partes do corpo. Especificamente, analisaram o microbioma intestinal e vaginal das participantes mulheres, além do microbioma presente no sêmen dos parceiros. Essa abordagem mais ampla partiu da compreensão científica de que o intestino não é apenas responsável pela digestão, mas participa de funções críticas do organismo: regula a resposta imunológica, controla o metabolismo e influencia a produção de hormônios — todos elementos fundamentais para a reprodução bem-sucedida.

O foco na disbiose intestinal

Um conceito central na pesquisa é a “disbiose intestinal” — o desequilíbrio das bactérias benéficas que vivem no intestino. Quando essa comunidade bacteriana perde diversidade ou equilíbrio, pode prejudicar as funções que essas bactérias normalmente executam, afetando potencialmente a capacidade reprodutiva.

Facade of the Faculty of Law at the University of Porto, showcasing classic architecture.

O impacto significativo da disbiose intestinal nas chances de gravidez

Redução dramática nas taxas de sucesso em fertilização in vitro

Os resultados mostraram um achado consistente: mulheres com maior grau de disbiose intestinal apresentaram menor probabilidade de engravidar e, quando conseguiam, demoravam mais tempo para conseguir ter um bebê nascido vivo. O impacto foi quantificável. Entre as mulheres submetidas à fertilização in vitro (FIV), cada aumento no índice de disbiose intestinal foi associado a uma redução de cerca de 6,6 pontos percentuais na chance de gravidez por transferência de embrião. Para contexto, isso significa que uma mulher com disbiose moderada poderia ver suas chances reduzidas em uma proporção considerável comparada a mulheres com microbioma intestinal mais saudável.

Efeito nas perdas gestacionais recorrentes

Para mulheres com histórico de perdas gestacionais recorrentes — aquelas que enfrentaram múltiplos abortos naturais —, a associação foi igualmente significativa. Cada aumento no índice de disbiose intestinal correspondeu a uma redução de aproximadamente 6,4 pontos percentuais na probabilidade de engravidar ao longo de um ano. Esses números sugerem que o desequilíbrio das bactérias intestinais pode ser um fator relevante tanto para quem tenta engravidar quanto para quem já enfrentou gestações perdidas previamente, apontando um possível denominador comum nesses diferentes cenários de infertilidade.

A contribuição inesperada do microbioma do sêmen

Além dos parâmetros tradicionais do espermograma

Uma descoberta particularmente interessante foi que as alterações no microbioma intestinal e seminal não estavam correlacionadas aos parâmetros tradicionais avaliados em um espermograma — aquele exame que mede concentração de espermatozoides, motilidade e quantidade. Isso sugere que, no futuro, a análise do microbioma do sêmen poderá complementar a investigação clássica da infertilidade masculina, oferecendo novas perspectivas sobre a saúde reprodutiva dos homens além daquelas já conhecidas e avaliadas pelos especialistas há décadas. Em outras palavras, um homem pode ter um espermograma tecnicamente normal, mas ainda assim ter um microbioma seminal que prejudique as chances de sucesso reprodutivo do casal.

O microbioma vaginal não apresentou a associação esperada

Desafiando pressupostos anteriores

Contrariando as hipóteses iniciais dos pesquisadores e décadas de foco em uma única direção, o microbioma vaginal não demonstrou uma associação consistente com as chances de gravidez nem com o risco de perda gestacional. Grande parte das pesquisas anteriores sobre fertilidade havia concentrado a atenção exclusivamente no microbioma vaginal, criando expectativas de que alterações ali fossem críticas para o sucesso reprodutivo. Esse achado negativo é, paradoxalmente, muito informativo.

Uma visão holística da fertilidade

Segundo os autores do estudo, esse resultado evidencia a importância de avaliar a fertilidade de forma muito mais ampla e holística, considerando fatores relacionados aos dois parceiros simultaneamente e não apenas à saúde reprodutiva ou ao microbioma da mulher. O foco tradicional exclusivamente no corpo feminino está sendo ampliado, reconhecendo que a reprodução é um processo que envolve o casal como um todo.

O que ainda precisa ser confirmado e estudado

Associação versus causalidade

Os próprios autores da pesquisa são cautelosos ao interpretar os resultados. A pesquisa identificou apenas uma associação entre as alterações do microbioma e os desfechos reprodutivos — o que significa que ainda não é possível afirmar de forma definitiva que o microbioma seja a causa da infertilidade ou das perdas gestacionais. A diferença entre associação e causalidade é fundamental: encontrar duas coisas que ocorrem juntas não prova que uma causa a outra.

Os próximos passos da pesquisa

Novos estudos serão necessários para confirmar esses achados iniciais e investigar se intervenções capazes de modificar esses microrganismos — como mudanças na dieta, probióticos ou outros tratamentos — poderão, de fato, melhorar as chances de gravidez no futuro. Essas futuras pesquisas abrirão caminho para possíveis tratamentos baseados no microbioma, potencialmente oferecendo esperança a casais que hoje enfrentam infertilidade sem causa aparente.

Perguntas frequentes

O que é disbiose intestinal e como afeta a gravidez?

Disbiose intestinal é o desequilíbrio das bactérias benéficas que vivem no intestino. Segundo o estudo, esse desequilíbrio reduz as chances de gravidez e aumenta o risco de perdas gestacionais recorrentes.

Quantas pessoas participaram da pesquisa?

A pesquisa acompanhou 353 mulheres com infertilidade ou histórico de perdas gestacionais recorrentes, além de 191 de seus companheiros, entre 2018 e 2023.

O microbioma do sêmen pode ser analisado como o espermograma tradicional?

O estudo sugere que alterações no microbioma do sêmen não estão relacionadas aos parâmetros tradicionais do espermograma, indicando que a análise do microbioma poderá complementar essa avaliação no futuro.

Written by
Juliana Bresser

Juliana Bresser escreve sobre desenvolvimento infantil, marcos motores e cognitivos, e estímulos apropriados para cada fase. É mãe de dois filhos e pedagoga de formação.