Em resumo
- Iracema Morais completa ensino médio aos 91 anos após esperar 76 anos desde ser retirada da escola na infância.
- Ela aprendeu a ler e escrever na quarta série, mantendo essas habilidades durante toda a vida mesmo longe da educação formal.
- A volta aos estudos ocorreu através da EJA, modalidade que acolhe jovens, adultos e idosos para completar formação escolar.
Nos próximos dias, Iracema Morais, de 91 anos, viverá um momento que aguardava desde a infância. Em 28 de agosto, receberá o diploma de conclusão do ensino médio em São Paulo do Potengi, município no interior do Rio Grande do Norte. A formatura acontecerá através da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade que ofereceu a segunda chance negada durante 76 anos.
A infância interrompida
O desejo que começou cedo
Desde pequena, Iracema sentia a vontade natural de frequentar a escola. Chorava pedindo para poder estudar como outras crianças, demonstrando com clareza aquilo que desejava. Mas em sua casa, aquele anseio encontrou um obstáculo familiar. Seu pai era analfabeto e desconfiava da educação formal, especialmente para meninas. Apesar da insistência, Iracema só conseguiu entrar na escola aos 10 anos.
Quarta série e saída abrupta
Na escola, avançou apenas até a quarta série antes de ser retirada pelo pai. A educação formal de Iracema terminou ali, deixando uma ferida que levaria décadas para começar a cicatrizar. A criança que havia chorado tanto para poder estudar viu seu sonho interrompido exatamente quando começava a prosperar.
Sete décadas entre maternidade e desejo adiado
Vida como mãe de 16 filhos
Saindo da escola após a quarta série, Iracema entrou em um novo capítulo que consumiria as próximas sete décadas. Tornou-se mãe de 16 filhos. Criar uma família tão grande, especialmente em contexto rural com recursos limitados, exigia praticamente toda sua energia vital. As responsabilidades da maternidade foram imensuráveis, deixando pouco espaço para que Iracema pudesse pensar em seus próprios objetivos educacionais.
O sonho hibernando, nunca morto
Mas mesmo durante essas sete décadas de dedicação à maternidade, o sonho original de Iracema nunca morreu completamente. Hibernou, dormiu em algum lugar profundo de sua memória. Durante todos esses anos longe da sala de aula formal, ela manteve vivas as habilidades adquiridas: sabia ler e escrever com competência. Desenvolveu facilidade para resolver contas de cabeça, demonstrando capacidade matemática que nenhum professor havia ensinado formalmente. O conhecimento que não recebia da educação formal, ela buscava através da vida vivida e da observação constante do mundo.
O retorno aos 91 anos
A Educação de Jovens e Adultos como porta de entrada
A Educação de Jovens e Adultos reconhece uma verdade fundamental: nem todas as pessoas conseguem estudar no tempo convencionado. A EJA existe para quem abandonou a escola por necessidade econômica, para quem nunca teve acesso, para quem deseja completar sua formação em qualquer fase da vida. É modalidade da educação básica brasileira disponível para qualquer um, independentemente da idade ou do tempo transcorrido desde que saíram da escola.
Alicerce de uma vida vivida
Quando Iracema ingressou na EJA aos 91 anos, não começava do zero. Aqueles 76 anos longe da educação formal não a deixaram sem conhecimento. Trazia consigo uma bagagem de vida vivida, de experiências acumuladas, de aprendizados alternativos. Sabia ler e escrever com clareza. Tinha facilidade com cálculos numéricos. Essas habilidades fundamentais formaram um alicerce sólido para retomar o aprendizado formal.
Demonstrando aptidão onde se esperaria dificuldade
O que mais impressiona é a capacidade de Iracema de aprender e se desenvolver. Não apenas frequentou as aulas regularmente, mas demonstrou facilidade genuína com o conteúdo. Conseguia compreender textos, resolver problemas, participar ativamente das discussões em sala de aula. Mostrou particular facilidade com matemática, resolvendo problemas numericamente com agilidade inesperada. A idade que muitos usariam como desculpa provou ser irrelevante para a capacidade intelectual de Dona Iracema.
Perguntada sobre sua determinação, Iracema explicou com palavras simples mas profundas: “Sempre tive esse sonho de começar a estudar. Foi isso que me fez não desistir, mesmo já idosa. Esperei 76 anos para voltar a estudar”. Essas palavras resumem sua clareza de propósito. O sonho que havia começado com lágrimas de criança não morreria simplesmente porque ela havia envelhecido.
28 de agosto: a data da realização
Iracema receberá seu diploma no dia marcado. Aquele diploma representa a formalização de uma conquista que ela já havia conquistado internamente: a prova de que é possível retomar um sonho depois de décadas, de que não existe uma idade “muito tarde” para aprender. A formatura ocorre no mês em que se celebra o Dia do Estudante, em 11 de agosto. A conclusão de Dona Iracema não é apenas evento pessoal, mas afirmação de um princípio maior: a educação não tem data de validade, não respeita limites de idade e nunca é verdadeiramente “tarde demais” quando a vontade é genuína.
Próximos passos
Gastronomia no horizonte
A conclusão do ensino médio não marca o ponto final da jornada educacional de Iracema. Ela já identificou seu próximo objetivo com clareza: fazer um curso de gastronomia. Essa decisão revela o caráter de Dona Iracema. Demonstra que para ela, educação não é um destino a ser alcançado e abandonado, mas uma jornada contínua. Sempre há algo novo para aprender, sempre uma porta aberta para o aprendizado futuro. Aos 91 anos, Iracema continua olhando para frente.
Inspiração para gerações
A história de Iracema impacta a de toda sua família extensa. Seus 16 filhos testemunham o exemplo vivo que sua mãe estabelece. Adelino Netto, um deles, articulou o significado dessa trajetória: “Ter uma mãe formada aos 91 anos inspira a gente a não deixar de buscar conhecimento e mostrar que os sonhos podem ser realizados em qualquer idade”. Essas palavras capturam a essência do que a vida de Iracema comunica para sua descendência.
A história de Dona Iracema refuta as desculpas convenientes que inventamos para não tentar: a idade avançada, o tempo passado longe da escola, as responsabilidades acumuladas. É testemunho sobre a persistência de um sonho, sobre a recusa de aceitar que algumas coisas, uma vez perdidas, devem ficar perdidas para sempre. Iracema Morais prova que os sonhos podem hibernar por décadas, mas nunca estão realmente condenados ao esquecimento quando a determinação permanece viva.
Perguntas frequentes
Por que Iracema parou de estudar na infância?
Seu pai era analfabeto e não desejava que ela estudasse. Entrou na escola aos 10 anos e conseguiu completar apenas a quarta série, quando foi retirada pelo pai.
Quanto tempo Iracema esperou para voltar a estudar?
Esperou 76 anos. Parou na quarta série na infância e retomou os estudos através da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O que Iracema planeja fazer após concluir o ensino médio?
Ela planeja fazer um curso de gastronomia após receber o diploma em 28 de agosto.