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Bullying no Brasil: 4 em cada 10 adolescentes já foram vítimas, revela IBGE

Em resumo

  • Os números do IBGE confirmam que o bullying não é um problema isolado ou esporádico nas instituições de ensino do Brasil.
  • A pesquisa do IBGE identifica que a aparência física é o principal foco dos agressores.
  • Além da humilhação verbal e cyberbullying, a violência física representa uma dimensão preocupante do fenômeno.
  • Um achado particularmente grave da pesquisa refere-se à violência sexual no ambiente escolar.

Quatro em cada dez adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos já sofreram bullying na escola, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março de 2026. A pesquisa revela que 39,8% dos estudantes experimentaram alguma forma de humilhação ou agressão por parte de colegas, com 27,2% relatando casos repetidos de intimidação. O levantamento aponta uma crise crescente nos ambientes escolares que impacta diretamente a saúde mental dos adolescentes e a dinâmica familiar brasileira.

Uma epidemia silenciosa nas escolas brasileiras

Os números do IBGE confirmam que o bullying não é um problema isolado ou esporádico nas instituições de ensino do Brasil. A proporção de vítimas revela uma realidade alarmante: mais de um terço dos adolescentes enfrenta humilhação, agressão verbal ou física de colegas regularmente. Quando considerados apenas os casos de bullying repetido—aquele que ocorre duas ou mais vezes—a taxa de 27,2% demonstra que muitos jovens vivem em ciclos contínuos de intimidação que afetam sua autoestima, desempenho acadêmico e bem-estar emocional.

As meninas são desproporcionalmente afetadas pelo fenômeno. Enquanto 37,3% dos meninos relatam ter sofrido bullying, o índice sobe para 43,3% entre as adolescentes. No contexto específico do cyberbullying—humilhação e ameaças nas redes sociais—a disparidade é ainda mais acentuada: 15,2% das meninas sofrem intimidação digital, comparado a 10,3% dos meninos. Essa vulnerabilidade de gênero exige atenção especial de pais e educadores no que diz respeito ao monitoramento digital e ao suporte emocional.

Aparência física como alvo principal

A pesquisa do IBGE identifica que a aparência física é o principal foco dos agressores. Trinta por cento dos casos de bullying visam características faciais ou cabelo da vítima, enquanto 24,7% dos ataques concentram-se na imagem corporal dos adolescentes. Esses números refletem uma realidade particular da adolescência, fase crítica para a formação da autoestima e da autoimagem, na qual a pressão social pelos padrões estéticos atinge seu pico.

Especialistas em desenvolvimento infantil apontam que o bullying baseado em aparência deixa marcas profundas na psicologia do adolescente. A pesquisa também registra que 29% dos estudantes sentem-se tristes “sempre” ou “na maioria das vezes”, enquanto a satisfação corporal caiu drasticamente de 70% em 2015 para apenas 58% em 2024. Esses indicadores sugerem que a intimidação relacionada à aparência contribui significativamente para problemas de saúde mental entre os jovens brasileiros.

Agressão física e comportamento agressivo entre pares

Além da humilhação verbal e cyberbullying, a violência física representa uma dimensão preocupante do fenômeno. O IBGE constatou que 16,6% dos estudantes já foram fisicamente agredidos por colegas, enquanto 13,7% admitem praticar bullying contra outros adolescentes. Entre os que praticam bullying, taxas mais altas aparecem entre meninos (14,7%), estudantes negros (15,1%) e alunos de escolas privadas (13,5%).

Pesquisadores apontam que o comportamento agressivo entre adolescentes está frequentemente vinculado a fatores familiares, como exposição à agressão doméstica, ausência parental e absenteísmo escolar. Educadores enfatizam que estabelecer vínculos familiares seguros e oferecer supervisão adequada reduz significativamente tanto o risco de um adolescente ser vítima quanto o de se tornar agressor. A colaboração entre famílias e escolas em programas de diálogo e resolução de conflitos mostra-se essencial para interromper ciclos de violência.

Violência sexual nas escolas: um problema emergente

Um achado particularmente grave da pesquisa refere-se à violência sexual no ambiente escolar. O IBGE registrou que 18% dos estudantes experimentaram assédio sexual, enquanto aproximadamente 9% foram forçados a relações sexuais indesejadas. Esses dados indicam que a violência de gênero permeia as instituições de ensino brasileiras, frequentemente entrelaçada com práticas de bullying.

Pediatras e psicólogos do desenvolvimento ressaltam a importância de educação sobre consentimento e autonomia corporal desde a infância. Pais devem estabelecer diálogos abertos com seus filhos sobre o que constitui comportamento apropriado, criar mecanismos seguros para denúncia e validar qualquer relato de assédio. A educação sexual preventiva nas escolas e nas famílias emerge como ferramenta crucial para proteger adolescentes dessa forma extrema de violência.

Evolução do fenômeno desde 2019

Comparando os dados atuais com a pesquisa anterior de 2019, o IBGE identificou um aumento ligeiro no número total de vítimas, mas uma elevação mais significativa nos casos de bullying repetido. Essa tendência sugere que as estratégias de prevenção atualmente implementadas nas escolas brasileiras são insuficientes para conter a intimidação sistemática. O crescimento proporcional dos casos recorrentes indica que adolescentes que sofrem bullying enfrentam situações crônicas que se perpetuam sem intervenção efetiva.

Especialistas argumentam que a persistência do fenômeno demanda mudanças estruturais nas políticas escolares, incluindo programas de saúde mental, treinamento em resolução de conflitos e protocolos claros de denúncia. Pais têm papel fundamental em defender essas mudanças em suas comunidades escolares, além de implementar estratégias de proteção e apoio emocional em casa.

O pico do bullying entre 12 e 15 anos

Os dados do IBGE evidenciam que o bullying atinge seu ápice entre os 12 e 15 anos, com declínio gradual na adolescência tardia. Essa faixa etária coincide com marcos críticos do desenvolvimento, como formação de identidade, busca de independência dos pais e reorganização das relações de amizade. Compreender essa trajetória permite que pais e educadores implementem estratégias preventivas e interventivas adequadas ao estágio desenvolvimentista de cada adolescente.

Durante esse período vulnerável, pais podem utilizar técnicas como comunicação aberta e sem julgamentos, dramatização de cenários de conflito, e monitoramento apropriado da atividade digital. A presença atenta de adultos confiáveis reduz significativamente o risco de um adolescente sofrer bullying prolongado ou desenvolver consequências psicológicas graves. Investir em relacionamento familiar sólido durante a infância funciona como fator protetor durante a adolescência.

O que observar nos próximos meses

Especialistas aguardam respostas do Ministério da Educação e das secretarias estaduais de educação quanto a políticas de intervenção baseadas nos dados do IBGE. Escolas estão sendo pressionadas a implementar programas de prevenção de bullying mais robustos, campanhas de conscientização e canais de denúncia acessíveis. Também se espera que discussões sobre educação digital e segurança nas redes sociais ganhem espaço nas agendas de políticas públicas.

Para as famílias brasileiras, esses dados reforçam a urgência de manter conversas abertas com adolescentes sobre experiências escolares, monitorar sinais de tristeza ou isolamento, e criar ambientes domésticos nos quais a aparência física não seja motivo de crítica ou comparação. O combate ao bullying exige ação coordenada de pais, escolas, governos e sociedade, transformando a cultura escolar brasileira em espaço verdadeiramente seguro para todos os adolescentes.

Written by
Mariana Castilho

Mariana Castilho é jornalista especializada em maternidade e primeira infância, com foco em gravidez, parto e os primeiros meses com o bebê. Escreve para ajudar mães de primeira viagem a se sentirem mais seguras em cada etapa.